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sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ativismo gordinho.

Com a correria não consegui tirar uma foto decente.

Hoje na Adhemar de Barros pelo menos duas das gordinhas de dona Eliana estavam usando "camisetas". A que eu consegui ler dizia "ABORTO LEGAL PRA NÃO MORRER". A frase me atingiu em cheio! Além disso, achei a forma de passar a mensagem muito interessante.

Pra mim a interrupção da gravidez com dignidade e segurança tem a ver com saúde pública e cidadania. Me incomoda muito o fato de a religião de alguns ditar a vida (e eventual morte) de todos. Penso que não faz sentido arriscar a vida de uma mulher pra poupar um supostamente divino feto ou embrião, especialmente se este for tornar-se humanamente miserável num horizonte de meses.

E olhe que eu estava evitando falar em religião aqui...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Preguiça e amizade.

Acabo de descobrir uma forma fácil de fazer referência a posts de amigos. Inauguro a modalidade com 2 referências: um post de David a respeito de internet e TV , e um infantil post de Melissa.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Somos uns machinhos otários.

Sempre me comportei como heterossexual. Era a minha primeira vez naquele lugar, levado por um amigo habitué. De repente me vi diante de um par de dignos representantes do sexo masculino, os quais embora nao fossem tipos comuns, eram parecidos: jovens, fortes, negros cabelos longos, penteados elaborados. Ambos estavam descalços, torsos nus, e trajavam tangas com miçangas. Os peitos desenvolvidos destacavam-se nos corpos depilados. Os presentes, homens e mulheres, pareciam ansiosos para ver o que iria acontecer. Estávamos num local amplo, a preocupacao com a higiene era evidente, mas lembro-me de ter pensado que aquele espaço era pequeno demais para aquele par de espécimens.

Os dois estavam frente a frente, e olhavam-se nos olhos. O homem à minha direita, mais alto, parecia estar seguro de si, mas hesitou, desviou o olhar, e afastou-se. O outro seguiu-lhe o exemplo, visivelmente irritado. Cada qual no seu canto, pareceram desabafar com confidentes. Estavam tensos. Suavam. Olharam-se novamente e voltaram para onde haviam estado momentos antes. Agora pareciam decididos, e agiam como machos fanfarroes: gestos largos, ocupando o espaço, marcando territorios. O homem à minha esquerda bateu acintosamente no abdomen. Em resposta, o outro tocou o pênis por sobre a tanga. Achei que eram gestos estudados...

Havia ainda um terceiro homem, que trajava um vestido branco com detalhes em preto, meias brancas, sandalia baixa também branca. Usava um chapéu preto, e segurava um leque. O clima era tenso, e tudo parecia ser controlado pelo crossdresser. Depois de se olharem fixamente por alguns segundos, o homem à esquerda tomou a iniciativa e partiu em direcao ao outro, que respondeu positivamente. O que se seguiu foi um dos contatos mais intensos e dramáticos que já presenciei entre dois homens, excetuando-se atos de violência física. Eles pareciam ter fome um do outro. Eram ávidos, enérgicos, frenéticos. Agarravam-se, abraçavam-se, arrebitavam-se, tentavam despir-se mutuamente, procuravam a melhor posição. Mantiveram-se de pé, os rostos colados, mas não se beijaram. O crossdresser movia-se rapidamente de um lado pro outro em busca de bons ângulos.

Aquele frenesi não durou nem um minuto. De repente os dois caíram no chao, o mais alto por cima. Como se aquilo o tivera levado instantaneamente ao clímax, ele saiu da posição, rolando abruptamente para o lado. Levantou-se tão rapidamente quanto pode, mas não sem que antes lhe passassem a mão na bunda. As pessoas estavam enlouquecidas. O homem que tinha estado por baixo pôs-se de pé rapidamente. Ambos ofegavam. Tornaram-se arredios, e pareciam frustrados, especialmente o mais baixo. Evitaram olharem-se nos olhos, cumprimentaram-se de longe, e afastaram-se, cada um pro seu lado.

Os presentes estavam excitadíssimos! Pude perceber a essência daquilo tudo: subjugação, poder, controle. "Somos uns machinhos otários", pensei. Desconfio que tenho alguma simpatia por acrósticos. Desconfie também.

Para ver o video da performance descrita acima, clique aqui .

"O sumô é um esporte de contato onde dois lutadores (rikishi) tentam cada um forçar o outro para fora de um ringue circular (dohyo), ou a tocar o solo com qualquer parte do corpo que não as solas dos pés. O esporte originou-se no Japão, onde atualmente ainda é muito popular, sendo aquele o único país onde é praticado profissionalmente. Na história contemporânea, houve uma pequena porém significativa quantidade de lutadores não-japoneses, muitos chegando a atingir a condição máxima de yokozuna. Os japoneses consideram o sumô "gendai budo", arte marcial moderna, embora o esporte tenha uma história de muitos séculos. A tradição do sumô é muito antiga, e mesmo hoje o esporte conta com muitos elementos rituais, como por exemplo a utilização do sal para purificação, vinda do tempo em que o sumô era parte da religião Xintoísta. A vida de um rikishi é altamente sistematizada e controlada, com regras definidas pela Associação de Sumô. Os lutadores de sumô devem viver em "alojamentos comunitários" onde todos os aspectos das suas vidas quotidianas - das refeições à forma de vestir - são ditados por rígidas tradições."

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Relacionamento aberto

Carla e Paulo se encontraram no centro médico.

- Você por aqui? Ta tudo bem?
- Oooiiiiiiiiiiiii!!! Tudo! Tô saindo do dentista. Minha boca ta torta?
- Sua boca ta normal.
- E aí, tudo certinho?
- Tudo. Eu vim buscar uns exames de minha mãe...
- Ela ta bem?
- Ta.
- E as novidades?
- Tudo indo...
- Namorando?
- Tô.
- Com aquela mesma menina?
- É, ainda tô com ela.
- Que bom.

- Ah! Eu vi no seu orkut que você ta tendo um "relacionamento aberto". Que novidade é essa?

- Menino... é ma-ra-vi-lho-so! Cada um tem seu canto, a gente só se vê quando quer, pode ficar com outras pessoas, não tem cobrança...

- Interessante. Como foi que isso rolou? Que eu me lembre, você não tinha nada de aberta...

- Pois é... mas eu mudei. Cansei das mentiras de vocês, sabia? Eu simplesmente decidi que ia ter um relacionamento assim, e comecei a procurar alguém...

- E achou.

- Achei. Foi facinho!

- Jura?

- Tô te dizendo...

- Há quanto tempo ta rolando essa estória?

- Quatro meses.

- Sem problemas?

- Nenhum problema.

- Quem é o felizardo?

- ... Cláudio.

- Cláudio... eu conheço?

- Claro que conhece! Claudinho... seu irmão!

- Meu irmão?!?!? Mentira!!!

- Ele mesmo.

- Mas... a gente tem conversado tanto ultimamente... e ele não me disse nada...!

- Deve ser porque ele não ta sabendo...

- O que?!? Você pirou???!!!???

- Pirei nada. É assim: eu falo que tô tendo um relacionamento aberto. Se alguem insiste muito em saber com quem, eu digo que o nome do cara é Cláudio, mas não dou referências. Faço de tudo pra não identificar. Até agora só tive que dizer que é Claudinho-seu-irmão pra duas pessoas, mas eu duvido que ele fique sabendo de alguma coisa através delas.

- Putaquipariu!

- Calma. Veja bem... eu digo que a relação é totalmente aberta, que mora cada um no seu canto, que a gente só se ve quando quer, que a gente às vezes se encontra mas não fica junto, que a gente pode ficar com outras pessoas, que não rola cobrança, blablabla...

- Sim...

- ... aí ninguem estranha se eu tô sozinha, não vão achar esquisito se virem ele com alguém, acham normal a gente não sair juntos, não me enchem o saco porque eu tô solteira, eu fico com quem eu quero, ninguém me vigia, não fazem fofoca, a ainda me acham cabeça, sexy, interessante, cool, moderna, e tal. É só alegria!

- Carlinha, o cara tem namorada!!!

- Qual é o problema? Todo mundo sabe que a gente pode namorar outras pessoas.

- Você é doida. Ele vai reagir mal se souber desse "relacionamento" de vocês.

- Ele vai ficar puto! E vai terminar comigo.

- Você não ta preocupada?

- Não muito. Voce sabe que a gente é super-amigo, né? Ele vai se zangar, depois vai deszangar, e a gente vai dar muita risada dessa estória.

- Pode ser...

- Você não vai contar a ele, vai?!?

- Eu não! Mas eu acho melhor você terminar esse tal relacionamento...

- É... talvez seja melhor mesmo. Mas é uma pena...

- Por que?

- Menino... a minha cotação subiu horrores... os carinhas ficam super-interessados! Peraí... só se...

- O que?

- ... meu próximo relacionamento aberto pode ser com Adriana. Imagine aí: eu sendo bi e tendo um relacionamento aberto... os caras vão fazer fila!!!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Porto da Barra.

Brincar com Fred e Juliara. Nadar até um barco e ficar tomando sol. Dar um mergulho depois do verdadeiro encontro de trios. Conversar com Moacyr pela última vez. Encontrar a galera. Sentir-me afortunado em tardes ditas úteis. Observar as figuraças. Ver o por-do-sol. Olhar os céus de Van Gogh. Ficar até de noite. Namorar na água...

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Carta eletrônica 2.

Talvez a chave não seja gostar, e sim saber relacionar-se, ou compreender , ou ter muita empatia, ou ser capaz de perdoar, ou ter compaixão, ou cumplicidade, ou acomodar-se, ou resignar-se, ou tudo isto junto e sincronizado!

Namoramos, vemos filmes, comemos com prazer, rimos muito, estamos com amigos, viajamos, dançamos, passeamos, gostamos da companhia do outro. Conversamos sobre trabalhos, ou a respeito das vidas dos próximos, contamos como foram os dias, falamos dos sonhos. Dizemos não querer casar e não pretender parir tão cedo. Será que queremos brincar de casinha?

Certamente tememos terceiros na nossa estorinha. Queremos acertar, equilibrar tudo, e corresponder. Sabemos omitir, mentir, mistificar, seduzir e desprezar. Queremos ser amados. Queremos romance e estabilidade!

A nossa passagem é breve. Somos pequenos, mas a vaidade é enorme, assim como a necessidade de possuir. Há demasiadas convenções, regras e convicções. Esquecemos que “as nossas certezas são sempre provisórias”...

Às vezes me dá um desalento, eu quase desatino, quase tomo uma atitude drástica com pouco gelo. Fico estressado, acabo tendo atitudes frias, deixo de fazer sentido, tenho dores de cabeça e reescrevo cartas eletrônicas.

Então olho em volta, respiro fundo, tento me recuperar, apelo pra amnésia, assisto comédias, e vou levando...

domingo, 2 de setembro de 2007

Amor e Sexo.

"Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão. O amor é uma construção do desejo. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre com tesão. Amor e sexo, são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno - depende da quantidade ingerida. O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento. No sexo, o pensamento atrapalha. O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com proibições; não há fantasias permitidas. O amor é o desejo de atingir a plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude. O amor vive da impossibilidade - nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode ser, dependendo da posição adotada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos. O amor é mais narcisista, mesmo entrega, na 'doação'. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo. Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do 'outro'. O sexo, mesmo solitário, precisa de uma 'mãozinha'. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não - é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor vem de nós. O sexo vem dos outros. ‘O sexo é uma selva de epilépticos' (N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a moral também, mas do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge. O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um caubói - quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: 'Faça amor, não faça a guerra'. Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu - das cavernas do paraíso até as 'saunas relax for men'. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século XII e, depois, relançado pelo cinema americano da moral cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem - o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controlá-lo é programá-lo,como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa nossas fantasias. Não há 'saunas relax' para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um 'amorzinho' para iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo. O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa 'grandeza'. O sexo é mais embaixo. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há 'sexo seguro', mas não há camisinha para o amor. O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo, o sonho dos casados. Amor precisa do medo, do desassossego. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se na tomada de poder. Amor é de direita. Sexo, de esquerda - ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta."

(Arnaldo Jabor)

sábado, 1 de setembro de 2007

Dos botecos.

"Amigos proponho aqui uma reflexão e quem sabe um grande engajamento!

Que sou afeita a uma cerveja gelada num boteco anacrônico com os mais variados personagens a freqüentar um balcão, não é novidade. Que, além disso, ando penando para salvar minha verve de esquerda diante de tamanho esfacelamento de utopias, é mais que sabido. Certamente vocês, meus amigos, vivem dramas similares. O que até então eu não havia pensado, ou melhor, sistematizado era o quanto esse drama pode ser exasperado e digerido no melhor dos sítios, o boteco. Explico: não falo aqui daquelas conversas infindáveis que culminam em monólogos em grupo sobre formas de reagir a Bush e engolir Lula .... o insight é de outra ordem!

Falo de nossas pulverizadas formas de resistir à lógica do capital e suas crias! Claro já tentamos de tudo: DCE, sindicato, boicotes à Nike enfim ... partes que nos cabem neste latifúndio, ops... partes que nos cabem neste assentamento!! Mudemos o texto de Cabral... o de João e o do Álvares!!! Anos de resistência e sempre nos sentimos devedores à causa, pois catalogamos atitudes de efeitos minimalistas... Mas, eis que surge o insight... Lá estava eu vindo de um programa capitalista no último volume. Bairro: Leblon! Cruzei com o ícone do mundo fantasmagoricamente belo e sem antinomias: Manoel Carlos. O narrador do sonho burguês. Cruzei com ele no shopping do Leblon e lembrei o quanto ele fez um Photo shop no Rio de Janeiro em sua última novela....pensei: Leblon....é Leblon. Daí comecei a entrar no clima Photo shop social: vitrines, Livraria Travessa...cafés...puro Glamour. Pasmei ao olhar os fetiches do capital....ô maravilha (em tom baixinho)...Daí eu e minha amiga Nelma, também afeita aos botecos, sindicatos e ao glamour resolvemos voltar pra casa a pé, meio que intimando o acaso...E AÍ?

Surge então o Popeye!!! Não o marinheiro também ícone da referida lógica do capital e seus produtos para fortalecimento de músculos e egos! Mas o boteco Popeye! O último boteco da Visconde de Pirajá-Ipanema! Geograficamente comprimido entre lojas de griffe e restaurantes de culinária internacional, o Popeye se impunha monstruoso não obstante suas medidas! Uma esquina, ah! Uma esquina! Essas coisas que Brasília não tem (em todos os sentidos)!!!! E lá estavam personagens de todas as épocas e épicos...estrangeiros com português fluente, bêbados, esposas ciumentas, amigos do futebol e transeuntes, como nós, que não resistiram ao cenário ao céu aberto cuja musica executada variava da bossa nova à nona de Bethoveen! Nesta esquina músicos tocavam e se avolumavam....todos que, por obra do acaso, passavam ali com instrumento na mão permitiam-se acatar os sinais que a deriva que é a vida oferecia... e como se estivessem sido escolhidos por divindades, paravam e retiravam o instrumento da bolsa...a Big Band ia se formando....Eu testemunhei no Popeye, o bar de um portuga mau humorado (quase um pleonasmo isso), um churrasco coletivo em pleno vapor...entre notas dissonantes, um pratinho circulava... Pensem numa picanha macia??? Num chopp bom... e nos amigos de infância que rapidamente se formavam...pensem nas gentilezas dos senhores galanteadores, nos depoimentos de histórias de vida que jorravam depois de uma rápida apresentação...ali todos comiam junto o churrasco coletivo, todos toleravam a lerdeza do garçom que servia o chopp, o mau humor do portuga, a imundície do banheiro, os rodopios do mendigo que insistia em dançar como nos musicais da Broadway ( fazendo jus à Big Band)... O tempo não era o do “time is money”... havia ali naquela esquina de Ipanema um experiência de tempo que não a do capital, não a da rapidez dos produtos! O tempo da fabricação, da produção, uma das formas mais impositivas do capitalismo era simplesmente negligenciado! E ninguém levantava bandeiras para tanto! Rompido o imperativo do tempo...outros ícones do massacre selvagem do capitalismo sucumbiam. Ninguém quis saber dos proventos alheios, dos contra-cheques, das posses e declarações de imposto. Todos estavam no mesmo patamar social...todos, exceto o mendigo dançarino que incomodava mais pela sua ânsia de roubar todo o palco (o passeio) do que pelos trapos que eram suas vestimentas. Afinal, todos estavam com poucas vestimentas...das concretas que tampam o corpo às simbólicas que mascaram a “persona”...como diz Sartre, todos estavam: “nus como minhocas”!! E o diálogo era fluido, às vezes trôpego dada certa embolação na língua... e os amigos se formavam sem carta de procedência...o espaço não tinha a propriedade consolidada....todos em pé, circulavam de roda em roda de conversa, despreocupados sobre quem seria caça e quem seria caçador na segunda-feira. Quem ocuparia este ou aquele endereço comercial no dia seguinte. Estas questões não cabem num boteco.. Muito menos num do tipo Popeye, cujo banquete circulava coletivamente de mão em mão. Ali a loucura não era medicalizada, os tipos não eram diagnosticados, os estratos sociais demarcados! Ora, mas não era essa ruptura que sonhávamos??? Um tempo que não o da produção em série, um convívio com o diferente que não o da classificação sócio-psiquiátrica? Uma música que não o “jabá”? Uma rua que não sirva exclusivamente para perpetuar o comércio da indiferença? Uma comida que sirva a todos?

Os discursos que nos penetram e encarceram ali não recebiam tributo. Senti-me numa revolucionária experiência de ruptura em relação às amarras do capitalismo. Lúdica ruptura, mas efetiva. No coração do glamour de Ipanema um nicho de resistência sem bandeiras em punho, com copos na mão, versos na cabeça e muita disposição. O último boteco, BOTECO, no seio do comércio de elite. E digo BOTECO com maiúscula, pois estamos cansados de ver por aí “produtos-boteco” ou botecos de decoradores (mais um serviço vendável) que reproduzem o ambiente físico, mas não o vivencial! Montam os garçons com modelitos a “la boteco”, mesas e pisos seguindo o figurino, esquecendo que o boteco é o lugar da des-configuração! Da ruptura. E estes que não são lançamento do último verão, estão exíguos... agonizantes. As vivências que ali se engendram, se agenciam, estão minguando e os verdadeiros boêmios – expatriados – obrigados a beber em “delicatessem” ou a fenecer em casa...

Há muito eu já não ia à porta de fábrica, fiz isso na graduação.
Há muito não panfleto, fiz isso há um tempão.
Há muito eu não acredito nas assembléias sindicais, apesar de fazer isso até hoje.
Mas, há muito vou a botecos...dos copos sujos, de corpos não assépticos...palco de narrativas tortuosas, de desejos pouco nobres, mas de solidariedades raras, de lógicas insurgentes ou para-consistentes....contudo, só agora, depois do Popeye compreendi o magnetismo que este canto sempre exerceu sobre mim...Ali, entre um copo e outro...um texto e outro, estagnamos o trator que tece homogenias temporais, culturais, vivenciais!!!! Nós, simples freqüentadores cheios de filosofias e teses esdrúxulas proferidas na mesa às vezes professoralmente, às vezes de modo ininteligível....Nós que ouvimos e desfiamos queixumes de todas as ordens entre um salame e um ovo rosado... Nós que amamos determinado garçom como a nossos professores da infância... Nós que nos entregamos à deriva ao boteco, sem anunciar ou até mesmo intuir, estamos quebrando imperativos dos mais virulentos... criando outros tempos, outros espaços, outros modos de elos humanos. Tomando esse aguardente que nunca sacia, fazemos revolução molecular...num âmbito que os marxistas de plantão nunca entenderiam!!!!!

Um brinde aos agenciamentos transgressores do Boteco!! Às esquinas, aos garçons, aos meninos, às meninas! E que o mau humor dos “portugas” nunca seja vítima da fluoxetina, a lerdeza dos garçons do treinamento empresarial, a imundície do banheiro da vigilância sanitária! Para que possamos continuar a tomar importantes decisões de nossas vidas neste templo de rupturas!

Ao engajamento etílico, companheiros!"

(Caroline Vasconcelos)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Profissões

Decorria o ano da graça de 2001 quando Greyce foi demitida da loja. Pegou o dinheiro da rescisão, mais algum emprestado com a mãe, e um pequeno patrocinio conseguido com o avô, tirou o passaporte, comprou a passagem, combinou tudo com Michele. Marco levou-a ate Guarulhos, ela quase perdeu o vôo com destino ao Galeão. Poucas horas depois estava cochilando num tranquilo vôo RG8704.

Michele aguardava ansiosa no desembarque internacional. Foram dividir o quarto que a amiga alugava num apartamento onde moravam outros 4 brasileiros, todos de São José. O primeiro trabalho foi numa "pastelaria". Muito serviço, ela acordava muito cedo, o dinheiro era pouco.

Na pastelaria conheceu Nuno. O rapaz trabalhava com o pai em uns stands de jogos na Feira Popular de Lisboa. Greyce foi conhecer a Feira, e foi conhecendo o Nuno. O negocio ia bem, como demonstravam a quantidade de gente que circulava por lá, e tambem o "Bê Eme" do Nuno. Para sorte da Greyce, a ex-namorada do moço, que trabalhava por la como ajudante, arranjou um emprego num escritório e pediu demissão. O Nuno quis ajudar a Greyce; conversou com o pai, e fez uma proposta à menina. Ela topou.

Greyce arrumava garrafas, apanhava argolas, entregava premios, buscava lanches, e pegava caronas com o Nuno. Trabalho fácil e divertido. Uma das suas funções era peculiar. Três vezes por dia ela ficava sentada numa cadeirinha, a qual na realidade era uma pequena plataforma basculante. A tal plataforma ficava em cima de um tanque com água, e embaixo de um alvo. Quando a pontaria dos clientes não estava grande coisa, ela levava umas inconsequentes boladas. Greyce não gostava se via que o cliente estava mirando nela, e não no alvo, mas levava na boa quando o engraçadinho era bonitinho. A situação era menos engraçada pra ela quando um jogador acertava na mosca: a plataforma basculava automaticamente, e ela caía de uma altura de mais de 1 metro, dentro do tanque!

Até hoje não sei qual é a denominação desta função profissional. Novas profissões estão sempre surgindo, o mundo é assim, e o mercado de trabalho também. Os empreendedores são muito criativos, ou têm uma certa capacidade de copiar e adaptar, ou ambos, e a sociedade vai evoluindo, as pessoas seguem trabalhando como podem.

Antigamente tudo era mais simples. Quando alguém dizia que era médico, a gente sabia razoavelmente do que se tratava. Atualmente algumas pessoas têm grande dificuldade em explicar como ganham dinheiro, geralmente devido a ignorância nossa, mas, de qualquer forma, isto indica que ocorreram mudanças.

Por exemplo, hoje em dia há quem compre e venda utensílios que não têm existencia material. Tenho dificuldade em lidar com o conceito de utensílio imaterial. Uma limitação minha, obviamente. Por outro lado, e graças a Leminski, adoro o verbete "inutensílio"...

Greyce já nao trabalha na Feira Popular. Eu não sei bem o que ela anda fazendo, mas ela diz que não acorda cedo, o dinheiro é bom, o serviço é divertido, e raramente fica muito molhada.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Primogênitos.

Quando meu irmão nasceu, passei 3 dias internado. Eu tinha febre alta, dores no corpo, diarréia e vômitos. O diagnóstico era incerto, pois ainda não era moda atribuir tais quadros a viroses. Quando me dei conta de que não iria conseguir que o recém-chegado morresse ou fosse devolvido, me curei. Até hoje sinto que ele fez uma tremenda sacanagem comigo. Ele simplesmente desorganizou o meu mundo, assim, de repente, sem qualquer acordo ou composição. Naquela época eu ocupava, há 5 anos, o discreto cargo de Rei do Universo, e percebi que seria deposto. Eu era o único filho de uma adorada filha única. A coisa era tão boa que, eu já adolescente e mesmo dividindo as atenções com o caçula, minha avó cortava queijo e doce em cubinhos, arrumava num pratinho em pares com tamanhos próximos, enfiava muitos palitinhos, e levava pra mim. Até hoje meu irmão não entende porque eu o maltratei enquanto pude, e não me perdoou. Nisso estamos quites.

Uma amiga, 37 anos, tem um único filho de quase 1 ano. O progenitor não mora com eles. Na casa moram outras 4 mulheres, nenhum homem, e nenhuma outra criança. O menino tem avós, e ainda umas 18 “tias”, amigas ou parentes da mãe, a maioria sem filhos. O sacaninha é lindo, super-simpático e muito carismático! Alguns de nós adivinhamos onde isto tudo vai levar, e portanto defendemos a criação do que chamamos “Fundo para a Promoção da Saúde Mental de Júnior” - FPSMJ. Abriríamos uma conta corrente, na qual faríamos depósitos periódicos, de acordo com a disponibilidade de cada um. Através de um documento, vincularíamos a utilização dos fundos ao pagamento de despesas com a promoção, manutenção ou recuperação da saúde mental do jovem que é objeto das nossas preocupações. Despesas com psicólogos infantis, psicoterapeutas conservadores, e medicamentos de tarja preta seriam pagas com recursos do FPSMJ. Prevejo alguma discussão no seio da nossa comunidade a respeito de o Fundo poder ser utilizado para custear de pares de tênis de 300 Dólares, maconha, garotas de programa, terapias alternativas, astrólogos, cocaína, telefonemas de 2 horas de duração para a namorada que estará passando um tempo em Melbourne, e tarólogos, provavelmente nesta ordem cronológica. Nota: propor a criação de um conselho deliberativo e/ou comissão de ética. Uma outra corrente preconiza providenciar, com urgência, um irmãozinho ou irmãzinha. Quanto a esta alternativa, minha amiga admite ter certas dificuldades. Mas eu tenho visto progressos.

Lúcia Helena foi a primeira. Uma princesinha, o verdadeiro amor da vida do pai, este um pobre homem cheio de dinheiro. Outros 2 filhos vieram. Lúcia estudou em colégio católico, andou de ônibus pela primeira vez aos 16 anos, fez ballet. Quando finalmente conseguiu permissão pra namorar, tentou que os namoradinhos convivessem com a família. Hoje ela ri das situações que os pobrezinhos enfrentaram, mas na época não houve humor possível. Foi fazer Medicina na Unicamp. Cursou durante 2 anos, o pai já sonhando com a futura clínica na velha casa de Brotas. Um dia telefonou ao pai e disse que estava abandonando o curso. O pai berrou, chantageou, ameaçou, passou mal, etc. Então percebeu que por telefone não estava funcionando, e foi a Campinas coagir pessoalmente. No apartamento encontrou Esther, e uma carta destinada a ele. Ali, muita novidade, e um número de telefone da capital. Pai e filha encontraram-se no dia seguinte, num McDonald’s. Desde então viram-se pouco. Além de São Paulo, Lúcia morou em Cambridge, Bruxelas e Sevilha. Hoje trabalha como tradutora, e se apresenta como “Lucy”. Tem uma filhinha de 6 ou 7 anos, e vive com sua companheira, Gema, uma espanhola de parar qualquer trânsito. Há dias me mandou um e-mail; o tom carinhoso de sempre, e animadíssima com seu novo affair, um bailarino queniano. Quando vem a Salvador, Lucy fica com Tia Nice, uma irmã da mãe. O pai ainda mora na Vitória, sem vista pro mar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

domingo, 26 de agosto de 2007

Crianças e livros.



Crianças em contato com livros. Pai e mães participam. Os primeiros têm sorte em malhar a imaginação, ao inves de pedir esmolas; os ultimos têm sorte em conviver com os primeiros naquela situação, e em terem oportunidade de viver momentos ludicos em meio a vidas atarefadas, estressantes, etc. Uns aproveitam melhor do que outros.

sábado, 25 de agosto de 2007

Um olhar diferente.



Estava amanhecendo, e esta é a cortina do meu quarto. Favor posicionar a cabeça a 90 graus, inclinando-a para a esquerda. Eu estava deitado.

Na realidade aí ha 2 cortinas, "uma por detras da outra". A cor daquela que está mais proxima do vidro da janela é alguma coisa entre cor-de-laranja e cor-de-abobora. A que é visivel a partir do interior do quarto é azul clara. A azul é utilizada normalmente, enquanto a outra geralmente fica "encolhida".

A certa altura herdei a cortina de cor dificil, entao decidi aproveita-la pra melhorar as minhas chances de dormir quando houvesse luz do dia.

Trata-se de uma imagem interessante, de algo banal. Convém tentar olhar assim de vez em quando.

Demonstrações

Utilizei a camera do celular e tirei uma foto da senhora minha mãe. Publiquei a foto num blog.

O objetivo era mostrar a ela que é possivel publicar num blog diretamente a partir daquele aparelhinho. De vez em quando procuro informa-la a respeito das possibilidades ligadas a internet, e-mail, celulares, cameras digitais, iPods, etc. Acho importante.

Quando mostrei a ela a foto na tela do computador, e disse que a foto ja estava na internet, ela perguntou:

"- Assim, direto, sem nenhuma conexão?"

Eu: "- É."

Ela:
"- Ótimo. Só é ruim quando dá defeito. Quanto mais desenvolvida a tecnologia, pior pra consertar."

Foi um comentário típico. Ela é, no minimo, pessimista. Sempre diz que alguma coisa não vai dar certo, que não vai funcionar, que a seleção brasileira vai perder o jogo, que é melhor não arriscar isto ou aquilo, que a situação vai piorar, etc.

Triste.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

De volta a Salvador.

Primeira semana em Salvador: calor desgraçado, umidade insuportável, ou seja... ótimo!!! A minha relação com esta cidade é muito forte.

E as figuraças?

"
Disse Octavio Mangabeira, coberto de ironia:
Pense num só absurdo,
hipótese que não se cria,
e vai achar numa esquina
da Cidade da Bahia.
"

Clique na imagem ao lado pra ver melhor a bicicleta do cara.


terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Amsterdam!

*
Dizem que eu estive em Amsterdam, mas eu não lembro!!! Lembro de estar num avião na Sexta à noite, e lembro de estar no aeroporto de Lisboa ontem à noite...

* Chris & Mirella, os melhores anfitriões que eu poderia ter.

* A vitrine de uma loja que enlouqueceria bateristas tupiniquins. Infelizmente o reflexo ocultou muitas baterias.


* De bicicleta, sempre:


* Novo não significa grande coisa...


* Mangueirense?


sábado, 25 de novembro de 2006

Saudade

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Cris :)



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OBÁ, MORDOMIA, ...



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Carlos Amílcar, aqui comemorando os seus 41 anos, cara de bêbado, e a cara do pai!

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Esclarecimento.

Dizem que estou em Portugal me prostituindo. Isto já esteve mais próximo da verdade, mas agora ja vai longe uma certa fase de "consultoria em Informatica" (creio que entre 98 e 2002).

Estou trabalhando. Apresento a AUDÁCIA:





Enquanto isso, em Lisboa...

Eu não invento coisa alguma. Está tudo aqui, pra quem quiser e puder ver. Como nem todos podem ver de perto, cumpro a nobre tarefa de informar e esclarecer.

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Abaixo, a porta do prédio onde estou "morando". Sem prestar muita atenção ao aviso, saliento que a fechadura está a aproximadamente 25 cm de distância do chão. O prédio não tem porteiro, e há alguns moradores idosos.



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Uma profissão "com saída":



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Por favor me perdoem, mas eu sempre achei que este seria um bom nome para uma loja de acessórios para cus:



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Um bom carro numa cidade onde lugares pra estacionar não são abundantes